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Tuesday, May 17, 2022

A SECRETA VIAGEM - Poema de David Mourão Ferreira




A Secreta Viagem

No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada...
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!


Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos...
Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa...


Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...
Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!


Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos.
— Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!



David Mourão-Ferreira, in "A Secreta Viagem"

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Wednesday, April 26, 2017

HORIZONTE

POSSESSIO MARES  

II 

HORIZONTE
Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
 'Splendia sobre as naus da iniciação.


Linha severa da longínqua costa -
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade

Poema de Fernando Pessoa in Mensagem, que possivelmente não teia sido escrito se o Poeta se tivesse enrolado com a Ofélia.
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Tuesday, April 01, 2014

AH! A saudade dessas milhas salgadas (V. Nemésio)

AH! A saudade dessas milhas salgadas, sem corpo
E a névoa e extensão que elas mesmas criavam!
O desejo de ser o lado de lá de tudo isso,
Muito mais que horizonte - e ali sempre pregado!

(Excerto do poema ÁSPERA VIDA, de Vitorino Nemésio,

um dos vultos da literatura portuguesa do século XX que mais aprecio. A fotografia é minha, do paquete SAGA SAPPHIRE, ex-EUROPA a largar de Lisboa barra do Tejo fora em tarde de mau tempo - 29 de Março de 2014...)

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Friday, February 12, 2010

SEA FEVER ...


I must go down to the sea again, to the lonely sea and the sky,

And all I ask is a tall ship and a star to steer her by;

And the wheel's kick and the wind's song and the white sail's shaking,

And a grey mist on the sea's face, and a grey dawn breaking.

I must go down to the seas again, for the call of the running tide

Is a wild call and a clear call that may not be denied;

And all I ask is a windy day with the white clouds flying,

And the flung spray and the blown spume, and the sea-gulls crying.

I must go down to the seas again, to the vagrant gypsy life,

To the gull's way and the whale's way where the wind's like a whetted knife;

And all I ask is a merry yarn from a laughing fellow-rover,

And quiet sleep and a sweet dream when the long trick's over

Sea Fever, a poem by John Masefield and one of Luís Miguel Correia photographs of the river Tagus taken at Cais do Sodré on 6 February 2010...

Friday, March 21, 2008

SEMPRE A ODE MARÍTIMA


E os navios vistos de perto, mesmo que se não vá embarcar neles,

Vistos de baixo, dos botes, muralhas altas de chapas,
Vistos dentro, através das câmaras, das salas, das despensas,

Olhando de perto os mastros, afilando-se lá pró alto,
Roçando pelas cordas, descendo as escadas incómodas,
Cheirando a untada mistura metálica e marítima de tudo aquilo -
Os navios vistos de perto são outra coisa e a mesma coisa,
Dão a mesma saudade e a mesma ânsia doutra maneira.

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

E o QUEEN ELIZABETH 2 fotografado no Tejo, a 21 de Abril de 2006, imponente no seu costado de gigante, com o MARVILA ao longe com rumo à Trafaria. Fotografia e edição de texto de Luís Miguel Correia

Tuesday, May 22, 2007

MANUEL ALEGRE POETA DO MAR

PAÍS DE MUITO MAR
Somos um país pequeno e pobre e que não tem senão o mar
muito passado e muita História e cada vez menos memória
país que já não sabe quem é quem
país de tantos tão pequenos
país a passar
para o outro lado de si mesmo e para a margem onde já não quer chegar. País de muito mar e pouca viagem.

Poema de Manuel Alegre escrito a 17-05-2006, in Doze Naus, edição Publicações D. Quixote, 2007

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