Wednesday, October 09, 2024
PORMENORES ARQUITETÓNICOS (olhar o FUNCHAL)
Sunday, March 03, 2024
Trocámos a Marinha pelo Mar
Sunday, March 12, 2023
A beleza clássica do paquete SANTA MARIA
Monday, November 21, 2022
Paquete INFANTE DOM HENRIQUE - uma fotografia com uma história
Monday, October 17, 2022
WORLD TRAVELLER no Tejo
Wednesday, October 12, 2022
WORLD TRAVELLER em Lisboa
Saturday, July 30, 2022
WORLD TRAVELLER em provas de mar
Tuesday, June 14, 2022
O Paquete FUNCHAL de 1961
Paquete FUNCHAL de 1961
por Luís Miguel Correia
Dos 25 navios de passageiros construídos para Portugal após 1945, com a política de «Regresso ao Mar», o paquete FUNCHAL de 1961 foi o grande sobrevivente, vencendo todos os desafios do tempo, comemorando-se agora os 60 anos da sua entrega à Empresa Insulana, ocorrida em Outubro de 1961.
É impossível comprimir a história do FUNCHAL nos 7 mil caracteres deste artigo, pelo que aqui ficam os acontecimentos principais e algumas palavras a registar a importância histórica deste belo paquete, concebido para a carreira das Ilhas, mas desenhado já a pensar num futuro de cruzeiros, o que aconteceu a partir de 1973, com muito sucesso.
A vida activa do FUNCHAL decorreu com Portugal a voltar as costas à Marinha Mercante e ao Mar, o que destaca ainda mais as qualidades do navio e das entidades que tão bem promoveram e operaram este paquete único: o armador Vasco Bensaude, o arquitecto naval Rogério d’Oliveira, o Eng. Gonçalves Viana, os armadores George Potamianos e Rui Alegre, o investidor norte-americano Brock Pierce, cujos milhões estão a prolongar a vida do FUNCHAL, numa nova fase, sempre com o nome original e a ligação a Portugal. Uma palavra ainda para o primeiro comandante do FUNCHAL, capitão Manuel Bio, em representação das centenas de tripulantes portugueses e internacionais que em 60 anos tanta fama deram ao FUNCHAL.
N/T FUNCHAL 1961-2021
Características técnicas: Navio de passageiros a turbinas a vapor, construído de aço, em 1960-1961. N.º Lloyd´s: 5124162. N.º oficial: H 479; Indicativo de chamada: CSBM. Porto de registo: Lisboa (registado na Capitania do Porto de Lisboa a 2-11-1961, livro 18, folha 32). Arqueação bruta: 10 031 toneladas; Arqueação líquida: 5339 toneladas. Porte bruto: 2750 toneladas. Deslocamento leve / máximo: 5895 / 8870 toneladas. Capacidade de carga: 3 porões para 2792 m3 de carga geral e 691 m3 de carga frigorífica. Comprimento ff.: 152,65 m; Comprimento pp.: 138,50 m; Boca: 19,08 m; Pontal: 11,60 m; Calado: 6,53 m. Máquinas: 2 grupos de turbinas a vapor Parsons, com 13 800 shp a 158 rpm, 2 hélices de 4 pás. Velocidade: 21 nós. Passageiros: 500 (80 – 1ª., 156 em turística A, 164 em turística B, 100 sem acomodação) Tripulantes: 178. Custo: DKK 46.454.194kr, cerca de ESC 201 046 000$00.
História: O FUNCHAL foi construído por Helsingor Skibsvaerft og Maskinbyggery A/S (Elsinore Shipbuilding & Engineering Co. Ltd.), em Helsingor, Dinamarca, (construção n.º 353), para a Empresa Insulana de Navegação, autorizada para tal pelo Governo Português (Despacho n.º 65 de 10-07-1959, do ministro da Marinha, Almirante Fernando Quintanilha). O contrato com o estaleiro assinado a 12-08-1959. A 4-07-1960 procedeu-se ao assentamento da quilha. O lançamento decorreu a 10-02-1961, sendo madrinha D.ª Beatriz Bensaude. O FUNCHAL efetuou as provas de mar de 7 a 12-10-1961 e foi entregue ao armador a 12-10, largando a 15-10 de Elsinore para Lisboa, onde entrou pela primeira vez a 19-10 sob o comando do Capitão da M M Manuel António Bio. A 20-10, foi visitado pelo ministro da Marinha. A 31-10 recebeu a visita do Presidente Américo Thomaz. Tonelagens alteradas em Lisboa em 10-1961 após arqueação feita «segundo a 1.ª regra do processo Moorsom»: Arqueação bruta: 9824 toneladas; Arqueação líquida: 5972 toneladas. Porte bruto: 2975 toneladas. O FUNCHAL saiu de Lisboa em viagem inaugural à Madeira e aos Açores a 4-11-1961, para o Funchal, Ponta Delgada, Horta, Angra do Heroísmo, Ponta Delgada, e Funchal, substituindo o paquete LIMA. O FUNCHAL começou por fazer uma viagem mensal à Madeira e Açores, intercalada por duas idas ao Funchal. A 11-01-1962 iniciou a primeira viagem regular à Madeira e Tenerife. O primeiro cruzeiro do FUNCHAL foi a viagem de Fim de Ano, de 29-12-1962 a 2-01-1963, de Lisboa ao Funchal, programa que se repetiu nos fins de ano de 1963, 1964, 1965, 1967, 1968, 1969, 1970, 1971, 1974, 2013 e 2014. Em 07-1962, no decurso das viagens 28 e 29, o FUNCHAL transportou o Presidente da República de Lisboa (3-07) para Santa Maria e Ponta Delgada (5-07), e da Horta (15-07) para o Funchal (17-07). De 22-06 a 3-07-1966 o FUNCHAL efectuou um cruzeiro a Ponta Delgada e ao Funchal, fretado ao Automóvel Clube de Portugal. Durante a viagem registaram-se avarias nas caldeiras que levaram à imobilização do FUNCHAL em Lisboa, de 3-07-1966 até 7-04-1967. Primeiro cruzeiro ao Mediterrâneo, de 8 a 18-08-1967 (Lisboa, Nápoles, Génova, Cannes, Palma de Maiorca, Gibraltar, Lisboa), seguido de um cruzeiro Lisboa, Tenerife, Funchal, Lisboa, de 18 a 23-08-1967. De 28-01 a 21-02-1968 o FUNCHAL foi fretado à Sociedade Geral para uma viagem especial a Cabo Verde e Guiné com o Presidente da República. De 31-10 a 3-11-1968, primeiro mini-cruzeiro do FUNCHAL de Lisboa a Gibraltar e Cádis. Viagens Southampton-Lisboa-Funchal-Las Palmas-Tenerife iniciadas a 7-10-1969, numa série programada para se realizar até 03-1970, mas suspensa a 10-11-1969 por dificuldades criadas pelas autoridades inglesas, ao reterem o dinheiro das passagens, em Libras, e falta de capacidade de tesouraria da Insulana face à situação. De 12 a 14-11-1971 o FUNCHAL serviu de hotel flutuante na Praia da Vitória, em apoio da cimeira dos presidentes Nixon e Pompidou na Terceira. De 23-01 a 10-04-1972 o FUNCHAL permaneceu em Lisboa em preparação para a viagem presidencial ao Brasil, em regime de fretamento ao Ministério da Marinha, transportando os restos mortais de D. Pedro IV, por ocasião dos 150 anos da independência do Brasil, de 10-04 a 10-05-1972. De 19-06 a 6-07-1972 o FUNCHAL fez um grande cruzeiro ao Mediterrâneo, fretado à Agência Europeia. Novas avarias nas caldeiras obrigaram à imobilização do FUNCHAL em Lisboa a 24-08-1972, e à substituição das turbinas por 2 motores Diesel Werkspoor, modelo 9TMS410, com 2x5000 bhp de potência, e 18 nós de velocidade. Remotorização e adaptação para cruzeiros em classe única (402 passageiros), feita em Amesterdão, de 16-11-1972 a 16-06-1973, pelo estaleiro NDSM. Custo: 100 mil contos. A 16-06-1973, início do primeiro cruzeiro internacional, com saída de Zeebrugges e Dover. A 11-12-1973 saída de Lisboa para o Brasil, onde fez cruzeiros fretado à Agência Abreu. Propriedade transferida a 4-02-1974 para a CTM-Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos. De 18-09-1974 a 19-10-1975 o FUNCHAL voltou a fazer a carreira das Ilhas por decisão governamental. A 10-05-1976, primeiro fretamento a G. P. Potamianos, para cruzeiros na Escandinávia. A 19-08-1985 o FUNCHAL foi vendido à firma Great Warwick Inc., (George Potamianos), iniciando os cruzeiros internacionais a 13-12-1985 sob gestão da Arcália Shipping / Classic International Cruises, com que operou até 09-2010. Adquirido pela Portuscale Cruises em 2013, remodelado na Navalrocha, para cruzeiros internacionais m que operou de 08-2013 a 2-01-2015. Vendido para Signature Living Cruises, Liverpool e entregue em Lisboa em 10-2019. Continuou em Lisboa imobilizado. Comprado a 30-01-2021 por interesses dos EUA para transformação em hotel flutuante, cujos trabalhos decorrem em Lisboa, com o objetivo de manter o navio no Tejo.
Artigo publicado na REVISTA DE MARINHA, edição de Dezembro de 2021.
Texto e imagens /Text and images copyright L.M.Correia. Favor não piratear. Respeite o meu trabalho, se descarregar imagens para uso pessoal sugere-se que contribua para a manutenção deste espaço fazendo um donativo via Paypal, sugerindo-se €1,00 por imagem retirada. Utilização comercial ou para fins lucrativos não permitida (ver coluna ao lado) / No piracy, please. If photos are downloaded for personal use we suggest that a small contribution via Paypal (€1,00 per image or more). Photos downloaded for commercial or other profit making uses are not allowed. For other posts and images, check our archive at the right column of the main page. Click on the photos to see them enlarged. Thanks for your visit and comments. Luís Miguel Correia
Saturday, June 11, 2022
WORLD NAVIGATOR a sair de Lisboa
Tuesday, June 07, 2022
WORLD NAVIGATOR ao largo da costa portuguesa
Sunday, March 13, 2022
Lisboa como Porto e Cidade com gente e navios de passageiros
Lisboa como Porto e Cidade, com gente e navios de passageiros nossos. Navios portugueses com o nome Lisboa inscrito nobremente à popa.
Vem aí o VASCO DA GAMA
Thursday, November 25, 2021
Recordando o SANTA MARIA
Navios Portugueses
n/t SANTA MARIA de 1953
por Luís Miguel Correia
O antigo navio de passageiros SANTA MARIA, que navegou com as cores da Companhia Colonial de Navegação (CCN), de 1953 a 1973, foi um dos mais importantes navios portugueses do século XX.
Construído na Bélgica, em 1951-53, especialmente para fazer a carreira regular Europa – América do Sul, a par com o seu irmão gémeo VERA CRUZ (1952-1973), o SANTA MARIA foi um navio muito prestigiado, embora a fama atual se tenha ficado a dever muito mais ao incidente político ocorrido em 1961, e conhecido como o "assalto ao SANTA MARIA", do que às caraterísticas e serviços associados a este grande paquete português.
Ao contrário do que é voz corrente, a existência do SANTA MARIA não resultou do famoso programa de renovação da frota mercante nacional após a segunda guerra mundial, conhecido como "Despacho 100", tendo sido construído, por iniciativa independente da CCN, para consolidação da linha da América do Sul. Este serviço tinha sido iniciado em 1940, pela Colonial, como linha do Brasil, ligando Lisboa e Funchal ao Rio de Janeiro e Santos, com escalas em São Vicente de Cabo Verde, Recife e São Salvador, nela se tendo destacado o paquete SERPA PINTO, conhecido como o “Navio da Saudade” nos portos brasileiros.
O SERPA PINTO fora comprado em 1940 à Jugoslávia e era o antigo navio de passageiros inglês EBRO, construído em 1915 para a Mala Real Inglesa. Foi uma compra especialmente oportuna, com a guerra a alastrar rapidamente, e serviu a marinha mercante portuguesa até 1955.
Em 1953, o SANTA MARIA era o orgulho da indústria naval da Bélgica, tendo sido visitado pelo rei Balduino I, no estaleiro Cockerill, antes de ser entregue oficialmente à Companhia Colonial, a 20 de Outubro de 1953.
O navio havia sido encomendado em Abril de 1951 à Société Anonyme John Cockerill. Foi construído em Hoboken, Antuérpia. A quilha foi assente a 2 de Junho de 1951, minutos depois de o VERA CRUZ ser lançado à água. A 20 de Setembro de 1952 o SANTA MARIA foi lançado à água pelas 17h30; o cónego Moreira das Neves abençoou o navio, do qual foi madrinha Dª. Maria Amália Costa Leite (Lumbrales), mulher do ministro da Presidência.
O SANTA MARIA subiu o Tejo pela primeira vez a 25 de Outubro de 1953, comandado por Mário Simões da Maia. O navio foi visitado pelo ministro da Marinha à chegada a Lisboa, e pelo presidente da República, Craveiro Lopes, a 10 de Novembro, dois dias antes da largada na viagem inaugural, para Funchal, Salvador, Rio de Janeiro, Santos, Montevideu e Buenos Aires, transportando o ministro Américo Tomás em visita oficial ao Brasil, Uruguai e Argentina.
A 22 de Janeiro de 1961 o SANTA MARIA foi assaltado no mar, por 24 indivíduos portugueses e espanhóis, embarcados em La Guaira e Curaçau, dirigidos por Henrique Galvão e Jorge Sottomaior. O navio passou a notícia de destaque nos jornais de todo o mundo e acabou por arribar ao Recife a 2 de Fevereiro, e ser devolvido à CCN a 5, tendo regressado a Lisboa a 16 de Fevereiro. O assalto causou à CCN 16 mil contos de prejuízos, a vida do 3.º piloto João José do Nascimento Costa e a saúde depauperada do piloto João Lopes de Sousa, que ficou conhecido por "Sousa dos tiros".
Durante os seus 19 anos de navegações, o SANTA MARIA completou 192 viagens, das quais 14 à América do Sul, 176 à América Central, 1 a Angola, e 1 para a ilha Formosa, com passagem por Angola e Moçambique, na viagem de entrega para ser desmantelado. Fez também 11 cruzeiros, à Madeira, Mediterrâneo, Norte da Europa e nas Caraíbas. Transportou 373.372 passageiros e 57.008 toneladas de carga, tendo gerado 1.895.932 contos em passagens e 98.733 contos em fretes.
O SANTA MARIA era um belíssimo navio de passageiros, moderno e bem adaptado às necessidades da carreira do Brasil na década de 1950. Em paralelo com os 800 emigrantes na terceira, a primeira classe transportava 156 passageiros em instalações de luxo, havendo ainda a bordo a segunda classe, com alojamentos confortáveis para 232 passageiros. Com a arqueação bruta de 20.906 toneladas Moorson, 185 m de comprimento máximo e 23 m de boca, o SANTA MARIA estava equipado com turbinas a vapor, com 20.000 cavalos SHP, navegando a 20 nós, para o que consumia 140 toneladas de nafta por dia. Custo: 692 milhões de Francos Belgas, cerca de 511.236.000$00. Podia ter sido modernizado e adaptado para cruzeiros, mas tal não aconteceu.
(Artigo publicado originalmente no jornal O ILHAVENSE, em 2021. Fotografia do SANTA MARIA a navegar no rio Escalda, rumo a Antuérpia após provas de mar, em Outubro de 1953.)