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Tuesday, June 14, 2022

O Paquete FUNCHAL de 1961























Paquete FUNCHAL de 1961

por Luís Miguel Correia

Dos 25 navios de passageiros construídos para Portugal após 1945, com a política de «Regresso ao Mar», o paquete FUNCHAL de 1961 foi o grande sobrevivente, vencendo todos os desafios do tempo, comemorando-se agora os 60 anos da sua entrega à Empresa Insulana, ocorrida em Outubro de 1961.

É impossível comprimir a história do FUNCHAL nos 7 mil caracteres deste artigo, pelo que aqui ficam os acontecimentos principais e algumas palavras a registar a importância histórica deste belo paquete, concebido para a carreira das Ilhas, mas desenhado já a pensar num futuro de cruzeiros, o que aconteceu a partir de 1973, com muito sucesso.

A vida activa do FUNCHAL decorreu com Portugal a voltar as costas à Marinha Mercante e ao Mar, o que destaca ainda mais as qualidades do navio e das entidades que tão bem promoveram e operaram este paquete único: o armador Vasco Bensaude, o arquitecto naval Rogério d’Oliveira, o Eng. Gonçalves Viana, os armadores George Potamianos e Rui Alegre, o investidor norte-americano Brock Pierce, cujos milhões estão a prolongar a vida do FUNCHAL, numa nova fase, sempre com o nome original e a ligação a Portugal. Uma palavra ainda para o primeiro comandante do FUNCHAL, capitão Manuel Bio, em representação das centenas de tripulantes portugueses e internacionais que em 60 anos tanta fama deram ao FUNCHAL.

N/T FUNCHAL 1961-2021

Características técnicas: Navio de passageiros a turbinas a vapor, construído de aço, em 1960-1961. N.º Lloyd´s: 5124162. N.º oficial: H 479; Indicativo de chamada: CSBM. Porto de registo: Lisboa (registado na Capitania do Porto de Lisboa a 2-11-1961, livro 18, folha 32). Arqueação bruta: 10 031 toneladas; Arqueação líquida: 5339 toneladas. Porte bruto: 2750 toneladas. Deslocamento leve / máximo: 5895 / 8870 toneladas. Capacidade de carga: 3 porões para 2792 m3 de carga geral e 691 m3 de carga frigorífica. Comprimento ff.: 152,65 m; Comprimento pp.: 138,50 m; Boca: 19,08 m; Pontal: 11,60 m; Calado: 6,53 m. Máquinas: 2 grupos de turbinas a vapor Parsons, com 13 800 shp a 158 rpm, 2 hélices de 4 pás. Velocidade: 21 nós. Passageiros: 500 (80 – 1ª., 156 em turística A, 164 em turística B, 100 sem acomodação) Tripulantes: 178. Custo: DKK 46.454.194kr, cerca de ESC 201 046 000$00.

História: O FUNCHAL foi construído por Helsingor Skibsvaerft og Maskinbyggery A/S (Elsinore Shipbuilding & Engineering Co. Ltd.), em Helsingor, Dinamarca, (construção n.º 353), para a Empresa Insulana de Navegação, autorizada para tal pelo Governo Português (Despacho n.º 65 de 10-07-1959, do ministro da Marinha, Almirante Fernando Quintanilha). O contrato com o estaleiro assinado a 12-08-1959. A 4-07-1960 procedeu-se ao assentamento da quilha. O lançamento decorreu a 10-02-1961, sendo madrinha D.ª Beatriz Bensaude. O FUNCHAL efetuou as provas de mar de 7 a 12-10-1961 e foi entregue ao armador a 12-10, largando a 15-10 de Elsinore para Lisboa, onde entrou pela primeira vez a 19-10 sob o comando do Capitão da M M Manuel António Bio. A 20-10, foi visitado pelo ministro da Marinha. A 31-10 recebeu a visita do Presidente Américo Thomaz. Tonelagens alteradas em Lisboa em 10-1961 após arqueação feita «segundo a 1.ª regra do processo Moorsom»: Arqueação bruta: 9824 toneladas; Arqueação líquida: 5972 toneladas. Porte bruto: 2975 toneladas. O FUNCHAL saiu de Lisboa em viagem inaugural à Madeira e aos Açores a 4-11-1961, para o Funchal, Ponta Delgada, Horta, Angra do Heroísmo, Ponta Delgada, e Funchal, substituindo o paquete LIMA. O FUNCHAL começou por fazer uma viagem mensal à Madeira e Açores, intercalada por duas idas ao Funchal. A 11-01-1962 iniciou a primeira viagem regular à Madeira e Tenerife. O primeiro cruzeiro do FUNCHAL foi a viagem de Fim de Ano, de 29-12-1962 a 2-01-1963, de Lisboa ao Funchal, programa que se repetiu nos fins de ano de 1963, 1964, 1965, 1967, 1968, 1969, 1970, 1971, 1974, 2013 e 2014. Em 07-1962, no decurso das viagens 28 e 29, o FUNCHAL transportou o Presidente da República de Lisboa (3-07) para Santa Maria e Ponta Delgada (5-07), e da Horta (15-07) para o Funchal (17-07). De 22-06 a 3-07-1966 o FUNCHAL efectuou um cruzeiro a Ponta Delgada e ao Funchal, fretado ao Automóvel Clube de Portugal. Durante a viagem registaram-se avarias nas caldeiras que levaram à imobilização do FUNCHAL em Lisboa, de 3-07-1966 até 7-04-1967. Primeiro cruzeiro ao Mediterrâneo, de 8 a 18-08-1967 (Lisboa, Nápoles, Génova, Cannes, Palma de Maiorca, Gibraltar, Lisboa), seguido de um cruzeiro Lisboa, Tenerife, Funchal, Lisboa, de 18 a 23-08-1967. De 28-01 a 21-02-1968 o FUNCHAL foi fretado à Sociedade Geral para uma viagem especial a Cabo Verde e Guiné com o Presidente da República. De 31-10 a 3-11-1968, primeiro mini-cruzeiro do FUNCHAL de Lisboa a Gibraltar e Cádis. Viagens Southampton-Lisboa-Funchal-Las Palmas-Tenerife iniciadas a 7-10-1969, numa série programada para se realizar até 03-1970, mas suspensa a 10-11-1969 por dificuldades criadas pelas autoridades inglesas, ao reterem o dinheiro das passagens, em Libras, e falta de capacidade de tesouraria da Insulana face à situação. De 12 a 14-11-1971 o FUNCHAL serviu de hotel flutuante na Praia da Vitória, em apoio da cimeira dos presidentes Nixon e Pompidou na Terceira. De 23-01 a 10-04-1972 o FUNCHAL permaneceu em Lisboa em preparação para a viagem presidencial ao Brasil, em regime de fretamento ao Ministério da Marinha, transportando os restos mortais de D. Pedro IV, por ocasião dos 150 anos da independência do Brasil, de 10-04 a 10-05-1972. De 19-06 a 6-07-1972 o FUNCHAL fez um grande cruzeiro ao Mediterrâneo, fretado à Agência Europeia. Novas avarias nas caldeiras obrigaram à imobilização do FUNCHAL em Lisboa a 24-08-1972, e à substituição das turbinas por 2 motores Diesel Werkspoor, modelo 9TMS410, com 2x5000 bhp de potência, e 18 nós de velocidade. Remotorização e adaptação para cruzeiros em classe única (402 passageiros), feita em Amesterdão, de 16-11-1972 a 16-06-1973, pelo estaleiro NDSM. Custo: 100 mil contos. A 16-06-1973, início do primeiro cruzeiro internacional, com saída de Zeebrugges e Dover. A 11-12-1973 saída de Lisboa para o Brasil, onde fez cruzeiros fretado à Agência Abreu. Propriedade transferida a 4-02-1974 para a CTM-Companhia Portuguesa de Transportes Marítimos. De 18-09-1974 a 19-10-1975 o FUNCHAL voltou a fazer a carreira das Ilhas por decisão governamental. A 10-05-1976, primeiro fretamento a G. P. Potamianos, para cruzeiros na Escandinávia. A 19-08-1985 o FUNCHAL foi vendido à firma Great Warwick Inc., (George Potamianos), iniciando os cruzeiros internacionais a 13-12-1985 sob gestão da Arcália Shipping / Classic International Cruises, com que operou até 09-2010. Adquirido pela Portuscale Cruises em 2013, remodelado na Navalrocha, para cruzeiros internacionais m que operou de 08-2013 a 2-01-2015. Vendido para Signature Living Cruises, Liverpool e entregue em Lisboa em 10-2019. Continuou em Lisboa imobilizado. Comprado a 30-01-2021 por interesses dos EUA para transformação em hotel flutuante, cujos trabalhos decorrem em Lisboa, com o objetivo de manter o navio no Tejo.

Artigo publicado na REVISTA DE MARINHA, edição de Dezembro de 2021.

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Thursday, November 25, 2021

Recordando o SANTA MARIA

Navios Portugueses

n/t SANTA MARIA de 1953

por Luís Miguel Correia

O antigo navio de passageiros SANTA MARIA, que navegou com as cores da Companhia Colonial de Navegação (CCN), de 1953 a 1973, foi um dos mais importantes navios portugueses do século XX.

Construído na Bélgica, em 1951-53, especialmente para fazer a carreira regular Europa – América do Sul, a par com o seu irmão gémeo VERA CRUZ (1952-1973), o SANTA MARIA foi um navio muito prestigiado, embora a fama atual se tenha ficado a dever muito mais ao incidente político ocorrido em 1961, e conhecido como o "assalto ao SANTA MARIA", do que às caraterísticas e serviços associados a este grande paquete português.

Ao contrário do que é voz corrente, a existência do SANTA MARIA não resultou do famoso programa de renovação da frota mercante nacional após a segunda guerra mundial, conhecido como "Despacho 100", tendo sido construído, por iniciativa independente da CCN, para consolidação da linha da América do Sul. Este serviço tinha sido iniciado em 1940, pela Colonial, como linha do Brasil, ligando Lisboa e Funchal ao Rio de Janeiro e Santos, com escalas em São Vicente de Cabo Verde, Recife e São Salvador, nela se tendo destacado o paquete SERPA PINTO, conhecido como o “Navio da Saudade” nos portos brasileiros.

O SERPA PINTO fora comprado em 1940 à Jugoslávia e era o antigo navio de passageiros inglês EBRO, construído em 1915 para a Mala Real Inglesa. Foi uma compra especialmente oportuna, com a guerra a alastrar rapidamente, e serviu a marinha mercante portuguesa até 1955.

Em 1953, o SANTA MARIA era o orgulho da indústria naval da Bélgica, tendo sido visitado pelo rei Balduino I, no estaleiro Cockerill, antes de ser entregue oficialmente à Companhia Colonial, a 20 de Outubro de 1953.

O navio havia sido encomendado em Abril de 1951 à Société Anonyme John Cockerill. Foi construído em Hoboken, Antuérpia. A quilha foi assente a 2 de Junho de 1951, minutos depois de o VERA CRUZ ser lançado à água. A 20 de Setembro de 1952 o SANTA MARIA foi lançado à água pelas 17h30; o cónego Moreira das Neves abençoou o navio, do qual foi madrinha Dª. Maria Amália Costa Leite (Lumbrales), mulher do ministro da Presidência.

O SANTA MARIA subiu o Tejo pela primeira vez a 25 de Outubro de 1953, comandado por Mário Simões da Maia. O navio foi visitado pelo ministro da Marinha à chegada a Lisboa, e pelo presidente da República, Craveiro Lopes, a 10 de Novembro, dois dias antes da largada na viagem inaugural, para Funchal, Salvador, Rio de Janeiro, Santos, Montevideu e Buenos Aires, transportando o ministro Américo Tomás em visita oficial ao Brasil, Uruguai e Argentina.

A 22 de Janeiro de 1961 o SANTA MARIA foi assaltado no mar, por 24 indivíduos portugueses e espanhóis, embarcados em La Guaira e Curaçau, dirigidos por Henrique Galvão e Jorge Sottomaior. O navio passou a notícia de destaque nos jornais de todo o mundo e acabou por arribar ao Recife a 2 de Fevereiro, e ser devolvido à CCN a 5, tendo regressado a Lisboa a 16 de Fevereiro. O assalto causou à CCN 16 mil contos de prejuízos, a vida do 3.º piloto João José do Nascimento Costa e a saúde depauperada do piloto João Lopes de Sousa, que ficou conhecido por "Sousa dos tiros".

Durante os seus 19 anos de navegações, o SANTA MARIA completou 192 viagens, das quais 14 à América do Sul, 176 à América Central, 1 a Angola, e 1 para a ilha Formosa, com passagem por Angola e Moçambique, na viagem de entrega para ser desmantelado. Fez também 11 cruzeiros, à Madeira, Mediterrâneo, Norte da Europa e nas Caraíbas. Transportou 373.372 passageiros e 57.008 toneladas de carga, tendo gerado 1.895.932 contos em passagens e 98.733 contos em fretes.

O SANTA MARIA era um belíssimo navio de passageiros, moderno e bem adaptado às necessidades da carreira do Brasil na década de 1950. Em paralelo com os 800 emigrantes na terceira, a primeira classe transportava 156 passageiros em instalações de luxo, havendo ainda a bordo a segunda classe, com alojamentos confortáveis para 232 passageiros. Com a arqueação bruta de 20.906 toneladas Moorson, 185 m de comprimento máximo e 23 m de boca, o SANTA MARIA estava equipado com turbinas a vapor, com 20.000 cavalos SHP, navegando a 20 nós, para o que consumia 140 toneladas de nafta por dia. Custo: 692 milhões de Francos Belgas, cerca de 511.236.000$00. Podia ter sido modernizado e adaptado para cruzeiros, mas tal não aconteceu.

(Artigo publicado originalmente no jornal O ILHAVENSE, em 2021. Fotografia do SANTA MARIA a navegar no rio Escalda, rumo a Antuérpia após provas de mar, em Outubro de 1953.)

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Monday, June 21, 2021

Navio de carga e passageiros LOBITO de 1959


Acabei de escrever a história de mais um navio mercante português, destinada a ser publicada na próxima edição da REVISTA de MARINHA, dedicado ao cargueiro LOBITO, da Companhia Colonial de Navegação. 
O segundo navio com este nome a integrar a frota da Colonial, o LOBITO (II) de 1959, que depois em 1984 passou para a CTM, navegou até Maio de 1982, mudou o nome para INDEPENDÊNCIA em 1984, foi comprado pela Portline em 1985 e desmantelado em Alhos Vedros.
Com este artigo, são já 70 as histórias de navios portugueses publicadas na REVISTA DE MARINHA, numa série iniciada com os 56 navios do Despacho 100 e continuada entretanto com outros navios extra-D100 ou substitutos de navios D100 perdidos quase novos, caso do VILA DO PORTO e ARNEL, substituídos pelo AÇORES e PONTA DELGADA, respetivamente.
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Tuesday, March 09, 2021

A propósito da nossa Marinha Mercante - L. M. Correia entrevistado pelo Jornal da Economia do Mar


Entrevista de Luís Miguel Correia feita por Gonçalo Magalhães Colaço, Diretor do Jornal da Economia do Mar, publicada a 8 de Março de 2021. A pregar aos peixes...
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Tuesday, February 19, 2019

SANTA MARIA na Revista de Marinha

Capa e artigo publicado na REVISTA DE MARINHA (RM) de Janeiro de 1987 dedicado ao saudoso paquete português SANTA MARIA. 
Ligado de forma próxima à revista desde 1980, trabalhava na altura como Director-Adjunto e Gerente da empresa proprietária da revista, a ENN - Editora Náutica Nacional, Lda., sendo responsável por dar continuidade ao espírito do antigo Jornal da Marinha Mercante, absorvido pela RM em 1972, divulgando os assuntos contemporâneos e a história da nossa Marinha de Comércio e navios respectivos, nada que não continue a fazer nos dias de hoje, embora em contexto diverso, que o mundo mudou muito desde 1987 e quase desapareceu para a Marinha Mercante Nacional.
Enfim, uma forma de recordar o SANTA MARIA, cuja fotografia a cores foi tirada pelo fotógrafo madeirense João Pestana em Fevereiro de 1968, parte de um trabalho encomendado pela Companhia Colonial de Navegação, que depois aproveitou um outro slide, tirado quando da largada do paquete, ao final da tarde, rumo a Tenerife e La Guaira, para fazer um postal muito bonito.

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Sunday, December 10, 2017

Prémio "Comandante Gabriel Lobo Fialho"


Esta Quinta-feira, 7 de Dezembro de 2017, durante a cerimónia de apresentação da edição n.º 1000 da REVISTA DE MARINHA no Pavilhão das Galeotas do Museu de Marinha de Lisboa, fui homenageado com a  atribuição do prémio "Comandante Gabriel Lobo Fialho", que foi instituído pela RM para assinalar a melhor série de artigos publicados na RM nos últimos três anos, tendo o júri escolhido a série de artigos dedicados aos Navios do Despacho 100, que venho fazendo há alguns anos. Um prémio simpático, na medida do reconhecimento do trabalho que venho desenvolvendo pela preservação das memórias da nossa marinha mercante, que sinto como reconhecimento pela minha dedicação de tantos anos às causas dos navios e do mar e à RM.
Recebi o prémio das mãos da filha do Cte. Lobo Fialho, Rosarinho, que se vê na fotografia entre mim e o actual Director, Almirante Alexandre da Fonseca. Trabalhei durante 15 anos com o Cte. Fialho, de 1980 a 1995 e a minha ligação à Revista de Marinha começou em 1970, quando descobri o primeiro exemplar que adquiri. Com os anos, desde 1980, publiquei centenas de artigos e milhares de fotografias na Revista. E ainda continuo activo. Obrigado pela atribuição do prémio e pela homenagem. LMC

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Saturday, December 17, 2016

A história da P&O

175 ANOS DA P&O CRUISES

Por Luís Miguel Correia 

(Artigo original escrito em Julho de 2013 e publicado na revista Cruzeiros. 
Ver fotografias aqui)

A companhia P&O Cruises está a comemorar 175 anos de existência, podendo ser considerada a mais antiga empresa operadora de navios de passageiros do mundo, e de certa forma também a percursora das viagens marítimas turísticas, isto é os cruzeiros actuais.
A efeméride associada aos 175 anos da companhia é a data de assinatura do contrato com o Almirantado Britânico para o transporte de correio entre Inglaterra e a Península Ibérica, a 22 de Agosto de 1837, mas de facto as origens da P&O são anteriores, podendo-se considerar o ano de 1815 como o do começo desta grande aventura marítima que, curiosamente esteve ligada a Portugal desde as primeiras viagens.

A P&O E PORTUGAL

Em 1815 o escocês Brodie McGhie Willcox abriu um pequeno escritório em Lime Street, Londres onde iniciou as actividades de corrector de navios e agente comissionista, contratando para seu empregado Arthur Anderson.
As guerras napoleónicas chegavam ao fim e começava o século de ouro da Inglaterra como grande potência mundial. A influência britânica fazia-se sentir de forma particular no Reino Unido de Portugal e do Brasil, cujo rei D. João VI governava o império a partir do Rio de Janeiro, representado em Lisboa pelo marechal William Carr Beresford, comandante-chefe do Exército português de 1809 a 1820 e efectivo "protector" de Portugal Continental.
Consolidando o enorme poder político e económico da Grã-Bretanha, a revolução industrial alterava radicalmente os meios de produção, o comércio e os transportes.
A enorme influência britânica em Portugal e Espanha durante e após as guerras peninsulares gerou um importante movimento comercial e marítimo, no qual se especializaram Willcox e Anderson, tendo este passado a sócio do primeiro em 1822 quando a firma já operava no transporte de carga entre Inglaterra, Portugal e Espanha utilizando pequenos veleiros. Com as guerras civis, primeiro em Portugal, de 1828 a 1834 e de seguida em Espanha, Willcox e Anderson apoiaram os partidos liberais de ambos os países, vendo aumentar a influência na Península, passando os seus navios a ter como distintivo a bandeira azul, branca, amarela e encarnada, com as cores reais de Portugal e Espanha.
Os acontecimentos referidos acima coincidiram com a introdução da propulsão mecânica na navegação oceânica, com a construção e operação dos primeiros navios a vapor, precisamente nas décadas de 1820 e 1830.
Estes primeiros vapores eram navios de exploração comercial onerosa, pois as máquinas mais primitivas apresentavam consumos específicos de carvão muito elevados e a maior parte do espaço a bordo era reservado aos paióis de combustível em detrimento da capacidade de transporte de passageiros e carga. Estas particularidades levaram a que só tivesse sido possível rentabilizar as primeiras linhas de navegação a vapor com as receitas associadas ao transporte do correio. De facto a revolução no transporte marítimo trazida pelos primeiros vapores oceânicos traduziu-se essencialmente na melhoria do transporte de correio, até aí assegurado por navios de vela, que tinham data de largada fixa mas ninguém podia dizer quando chegavam ao destino. Tudo isto mudou com os vapores que passaram a receber subsídios importantes concedidos pelo goveno inglês na sequência de contratos para o transporte do correio.
A empresa de Willcox e Anderson, então designada por Peninsular Steamship Company,
vinha mantendo carreiras com vapores entre Inglaterra, Portugal e Espanha desde 1 de Junho de 1834, quando o ROYAL TAR largou de Londres para Lisboa com escalas em Plymouth e Falmouth, passando esta actividade a ter carácter regular a partir de Março de 1835 com a utilização de diversos navios afretados à companhia Dublin & London Steam Packet Company, de entre os quais o WILLIAM FAWCETT, considerado o primeiro navio da frota da P&O por depois ter sido comprado e reconstruído pela Peninsular & Oriental. O porto de destino mais importante era Lisboa, e os navios incluiam ainda a Corunha, Vigo, Cádis e Gibraltar nos seus itinerários.
Logo em 1836 algumas das viagens foram prolongadas de Lisboa até ao Funchal com o objectivo de para aí levarem, os primeiros "turistas" britânicos para fugirem aos rigores do inverno nórdico – seguiam para a Madeira no Outouno e regressavam a Inglaterra na Primavera seguinte, e em simultâneo "inválidos", isto é doentes, nomeadamente tuberculosos que na Ilha da Madeira procuravam ares mais saudáveis e ao mesmo tempo espalhavam doenças. O primeiro navio de passageiros da Companhia Peninsular a levar turistas para o Funchal foi o "esplêndido vapor IBÉRIA", então um dos maiores do mundo, em Outubro de 1836. O WILLIAM FAWCETT também fez viagens de Londres e Lisboa para o Funchal na mesma época. Apesar do sucesso destas iniciativas, os custos muito altos da construção e operação da frota levaram a Peninsular à beira da falência, o que só foi evitado com a assinatura do contrato para o transporte do correio de Sua Majestade Britânica, que se traduziu em 1837 num subsídio anual de £ 29.600 libras.
A ligação da companhia a Portugal permanece até aos dias de hoje, com a presença frequente de grandes paquetes de cruzeiros da P&O nos portos do Funchal, Horta, Leixões, Lisboa, Ponta Delgada e Portimão, trazendo muitos milhares de turistas.

AS LINHAS IMPERIAIS

A primeira viagem ao abrigo do contrato de correio teve início em Londres a 1 de Setembro de 1837 com o novo vapor DON JUAN, de 933 toneladas de arqueação bruta e máquinas desenvolvendo 320 CFI, que era então o maior navio do mundo e se perdeu no regresso da viagem inaugural por encalhe em Tarifa a 15 de Setembro de 1837, embora o correio se tenha salvo.
Ultrapassado este acidente, a nova carreira para a Península foi um enorme sucesso o que levou de imediato à realização de novos contratos para transporte de correio para outros destinos, sendo estabelecidas logo em 1840 as primeiras carreiras regulares pelos vapores das companhias Cunard e Royal Mail, para a América do Norte e Central.
Um novo contrato, assinado em 1840 com a companhia, alargou as actividades a Malta e ao Egipto, o que levou à alteração do nome da empresa para Peninsular & Oriental Steam Navigation Company, a célebre P&O, que viria a ser depois a maior companhia de navegação do mundo e ainda se mantém em actividade na área dos cruzeiros.
O crescimento da P&O foi rápido: em 1842 novo contrato permitiu o estabelecimento de viagens para a Índia. Os passageiros e a "mala" atravessavam o Egipto por terra até ao Mar Vemelho onde embarcavam de novo num vapor da P&O rumo à Índia. Em 1845 iniciaram-se as primeiras carreiras para Hong Kong e em 1852 a P&O estabeleceu as carreiras para a Austrália.

UM CRUZEIRO MARAVILHOSO

O progresso vertiginoso do segundo quartel do século XIX contemplou as primeiras experiências associadas ao lazer, com o nascimento do que hoje designamos por turísmo. Embora os primeiros turistas de que há memória tenham sido os passageiros do IBÉRIA destinados à Madeira em 1836, a primeira referência a uma experiência de cruzeiro turístico ficou a dever-se a William Thackeray com o livro "Notes of a Journey from Cornhill to Cairo", publicado em Londres em 1844, que obteve enorme sucesso e descrevia uma viagem de recreio ao Mediterrâneo, feita a convite da P&O. O autor navegou então em três vapores diferentes da companhia por forma a completar o seu "Grand Tour."
A P&O tornou-se rapidamente uma instituição imprescindível ao funcionamento do império victoriano. Em 1866 a frota da companhia contava com 53 vapores e eram utilizados 4000 camelos para assegurar a travessia terrestre do Egipto, o que mudou com a abertura do Canal do Suez em 1870. Para além da vocação pacífica da P&O concretizada com o transporte de correio, passageiros e carga, a vocação imperial da empresa levou à utilização dos navios da P&O como transportes de tropas e material de guerra proporcionando apoio logístico nos conflitos que foram surgindo ao longo do século XIX, com destaque para a guerra da Crimeia e mais tarde para a guerra dos Boers. Esta dualidade manteve-se durante o século XX com contribuições importantes durante as guerras mundiais, de 1914 a 1918, de 1939 a 1945 e mais recentemente durante a campanha das Falklands de 1982, na qual foram utilizados diversos navios do Grupo P&O, com destaque para o paquete CANBERRA.
Com o decorrer dos anos a P&O foi-se desenvolvendo sempre, construindo navios cada vez maiores e melhores e tornando-se uma das mais famosas instituições britânicas. Durante o século XIX a frota da companhia foi sempre composta por navios de passageiros e carga, totalizando 260 navios até 1899. As características e as dimensões dos navios evoluiram sempre, começando pelos primeiros vapores de rodas com cascos de madeira, substituídos depois por navios de aço equipados com hélices, etc... Os primeiros navios exclusivamente de carga foram o MAZAGON (1894-1907) e o CEYLON (1894-1913), construídos em 1894. Na viragem do século, os navios maiores da empresa eram os paquetes da classe INDIA, de cerca de 7.900 toneladas de arqueação bruta, 150 metros de comprimento, capacidade para 370 passageiros e 18 nós de velocidade.

A P&O NO SÉCULO XX

No ano de 1900 a frota da P&O era composta por 56 navios totalizando 287.576 toneladas de arqueação bruta e o maior era o paquete CHINA de 7.915 toneladas. A companhia recebia do Estado Britânico o subsídio anual de £ 305.000 pelo transporte de correio, o que se manteve até 1915.
Apesar de as actuais comemorações dos 175 anos da P&O acentuarem a particularidade de a empresa ter sido inventora dos cruzeiros turísticos, a verdade é que só em 1904 é que a P&O promoveu o primeiro programa de cruzeiros, com o paquete VECTIS, de 5.010 toneladas de arqueação bruta, construído em 1881 com o nome ROME. Com efeito em 1904 a companhia anunciou que o seu "iate a vapor VECTIS", de 6.000 toneladas e 6.000 cavalos de potência, convertido especialmente para transportar cerca de 150 passageiros em viagens exclusivas de recreio, passaria a efectuar cruzeiros regulares ao Mediterrâneo, ilhas do Atlântico e Escandinávia, proporcionando alojamentos luxuosos, salões de baile, sala de jogo, salas de recreio, sala de fumo, e um serviço esmerado de excursões nos diversos portos de escala organizadas pela agência Thomas, Cook & Son.
Claro que o ritmo dos cruzeiros da P&O em 1904 era outro, comparado com os padrões actuais: no início do século XX uma visita em cruzeiro a Estocolmo obrigava os passageiros a percorrer 15 milhas, tal a distância do local onde o navio fundeava até à cidade; as formalidades de desembarque na altura poderiam demorar nada menos que 6 horas, caso do porto de Kronstadt. De qualquer maneira os cruzeiros do VECTIS foram um sucesso, como o demonstra o índice de passageiros repetentes – dos 114 participantes num cruzeiro iniciado em Marselha em Setembro de 1904, nada menos de 44 já tinham feito o cruzeiro anterior...
Outra inovação importante para a frota de paquetes da P&O foi a instalação, a partir de 1909, do sistema Marconi de telegrafia sem fios.
Tendo crescido para além das expectativas mais optimistas durante o século XIX, a partir de 1910 a empresa descobriu uma nova forma de continuar a aumentar a sua importância, passando a comprar companhias de navegação rivais, a primeira das quais seria a Blue Anchor Line. Muito importante foi a aquisição em 1914 da British India, passando o Grupo P&O a deter uma frota conjunta de 197 navios com 1.158.506 toneladas de arqueação bruta, uma frota imensa para a época.
A Primeira Guerra Mundial teve consequências negativas para a frota da P&O, com a perda de 14 navios por acção inimiga de um total de 58 unidades "molestadas" muitas das quais sobreviveram, como aconteceu ao paquete NYANZA, torpedeado duas vezes, em Dezembro de 1917 e Fevereiro de 1918. Nove unidades da P&O foram transformados em cruzadores auxiliares ao serviço da Royal Navy.
A situação de guerra não impediu o crescimento da P&O como grupo de companhias de navegação, com a compra de outros armadores, destacando-se de uma longa lista as companhias New Zealand Shipping Company e Federal Steam Navigation Company, em Setembro de 1916, a Union Steam Ship Company of New Zealand, em Fevereiro de 1917 e uma participação de 51 por cento no capital da Orient Line, que concorria com a P&O na carreira da Austrália, e foi comprada em Dezembro de 1918. Consequência da expansão da frota e das novas aquisições, em 1923 a frota do Grupo P&O totalizava 460 navios com 2.5 milhões de toneladas de arqueação bruta.
A reconstrução da frota após a guerra assegurou a reposição das actividades tradicionais da P&O e permitiu o regresso aos cruzeiros em 1925 com o novo paquete RANCHI, cuja viagem inaugural foi precisamente um cruzeiro à Noruega. O melhor navio destinado à carreira da India neste período seria o VICERY OF INDIA, de 1929, igualmente utilizado com frequência em viagens de cruzeiro. Em 1932 o MOLDAVIA iniciou a operação de cruzeiros em classe turística em regime de classe única e nesse mesmo ano o STRATHNAVER inaugurou a 23 de Dezembro o primeiro cruzeiro com partida de Sydney, Austrália. No ano de 1934 a P&O transportou 16.731 passageiros em cruzeiros.
Os maiores navios de passageiros da P&O do período de entre as guerras foram os famosos STRATHs, (STRATHNAVER de 1931, STRATHAIRD de 1932, STRATHMORE de 1935, STRATHEDEN de 1937 e STRATHALLAN de 1938), todos de 22 a 24.000 toneladas, construídos no estaleiro Vickers, com cascos idênticos aos paquetes ORION e ORCADES, da Orient Line, com capacidades para cerca de 1000 passageiros cada e equipados comturbinas a vapor e velocidade de serviço de 20 nós. Os STRATHs introduziram na frota de paquetes da P&O as cores actuais, casco branco e chaminé amarela, pois até aí os navios eram pretos com casario amarelo, mastros castanhos e chaminés pintadas de preto.
A Segunda Guerra Mundial não se mostrou benevolente com a frota do Grupo P&O, tendo-se perdido 179 unidades com 1.166.401 toneladas de arqueção bruta. O esforço de recuperação após o conflito foi muito grande, devido ao aumento de custo das novas construções (os preços relativos dos navios subiram 90 por cento desde a entrega do HIMALAYA em 1948 até à construção do ARCADIA em 1954). Dos nove grandes paquetes novos previsos para as carreiras da P&O – Orient só se construíram sete, incluindo o CHUSAN que efectuou o primeiro cruzeiro P&O do pós-guerra em 1950. Visto como uma forma de utilizar os navios de passageiros durante os períodos de época baixa nas carreiras regulares, a actividade de cruzeiros cresceu em importância e em 1954 já representava uma parte significativa das receitas totais geradas pela frota de navios de passageiros.
Com a independência da India, a carreira mais importante passou a ser a da Austrália, operada em serviço combinado com a associada Orient Line. Esta empresa resolveu prolongar os itinerários da Austrália e Nova Zelândia através do Pacífico, ligando o Canadá e os Estados Unidos (costa oeste) e o êxito foi tal que a partir de 1958 os navios da P&O passaram a assegurar a mesma ligação, sob o nome "Orient & Pacific Lines", atraindo turistas norte-americanos para as rotas do Pacífico.
Ao mesmo tempo procedeu-se à encomenda dos dois maiores paquetes de linha da P&O – o CANBERRA, e da Orient Line – o ORIANA, que entraram ao serviço em 1960-61 e revolucionaram as ligações à Austrália e Nova Zelândia e as viagens pelo Pacífico, com velocidades de 27 nós.
Em Maio de 1960 a P&O comprou os 46 por cento restantes do capital da Orient Lines integrando-se ambas as frotas na P&O – Orient Lines. De início os navios da Orient mantiveram os cascos cor de milho, mas em 1966 todos os paquetes foram pintados de branco.
A década de 1960 seria o período final da P&O nas carreiras de longo curso para a Austrália e Nova Zelândia, Extremo Oriente e Pacífico. Os navios anteriores à Segunda Guerra Mundial foram todos vendidos e a frota reforçada com os gémeos CATHAY e CHITRAL adquiridos à Cie. Maritime Belge em 1961. Assim a P&O detinha na década de 1960 a maior frota do mundo livre composta pelos paquetes ARCADIA, CANBERRA, CATHAY, CHITRAL, CHUSAN, HIMALAYA, IBERIA, ORCADES, ORIANA, ORONSAY e ORSOVA, a que se juntavam númerosos navios de passageiros de outras empresas do grupo, com destaque para a British India e New Zealand. A década de 1960 acabou por ser também um período de mudanças radicais, com a redução gradual das carreiras regulares e o aumento de importância dos cruzeiros. Prenunciando essas mudanças, em 1965 o CHUSAN foi transferido da carreira do Extremo Oriente para a linha da Austrália e coube a este navio efectuar em Bombaim a última escala na India de um paquete da P&O, a 8 de Fevereiro de 1970. A carreira do Extremo Oriente foi entretanto encerrada em 1969.
Um passo importante para o futuro da P&O na área dos cruzeiros foi dado em 1970 com a realização do primeiro programa nos Estados Unidos, com base em São Francisco, com destino ao Alasca, utilizando-se os paquetes ORONSAY e ARCADIA a que se juntou em 1972 o SPIRIT OF LONDON, primeiro navio de cruzeiros moderno adquirido pela P&O.

A P&O CRUISES EM 2013

As mudanças radicais que se fizeram sentir no mundo dos transportes marítimos durante a década de 1960 provocaram uma verdadeira revolução, com o crescimento e a especialização dos navios, de que a contentorização foi a faceta mais evidente. Em 1971 o Grupo P&O foi totalmente reorganizado por áreas de actividade e as operações de passageiros foram concentradas numa nova entidade, a P&O Passenger Ship Division, cuja frota reunião nove navios da P&O Lines, dois da British India e dois da Eastern & Australian Line.
Em poucos anos, a maior parte dos paquetes clássicos foram vendidos para sucata na Formosa e as actividades de navios de passageiros concentradas no mercado de cruzeiros, com operações separadas com base em Southampton, Sydney e San Francisco.
A compra em 1974 da companhia norte americana Princess Cruises permitiu a expansão no mercado dos EUA e a compra dos paquetes ISLAND PRINCESS e PACIFIC PRINCESS em 1974 e 1975, respectivamente, ao mesmo tempo que o SPIRIT OF LONDON passou a integrar a frota da Princess como SUN PRINCESS. O passo seguinte no desenvolvimento da frota de cruzeiros resultou da compra do paquete KUNGSHOLM que substituiu o ARCADIA em 1979 como SEA PRINCESS. Em 1984 a P&O recebeu outro grande navio de passageiros, desta vez construído de raiz na Finlândia, foi o ROYAL PRINCESS, de 44.348 toneladas e 1260 passageiros, todos com camarotes exteriores, muitos dos quais com varandas.
O mercado norte americano tornou-se cada vez mais importante para a P&O e em 1988 a Princess Cruises comprou a rival Sitmar Cruises o que acrescentou à frota quatro navios em operação e mais três em construção: a P&O era já uma das maiores organizações de cruzeiros mundiais. A expansão continuou imparável, com a construção do novo ORIANA na Alemanha em 1995, ao qual se seguiram inúmeros outros navios de cruzeiros saídos de estaleiros alemães, franceses, italianos e japoneses desde então.
Durante o último quartel do século XX a P&O registou um surto de crescimento e diversificação de actividades muito grande, dirigida por Lord Sterling. A P&O tornou-se o único proprietário do consórcio Overseas Container Lines, comprou a European Ferries e a Sitmar, tornando-se a maior companhia de navegação britânica. Outras actividades do grupo incluiam a construção civil, a gestão de portos, os seguros.
O gigantismo da P&O e o protagonismo crescente numa multiplicidade de actividades económicas bem sucedidas colocou a companhia na mira dos grandes predadores do capitalismo internacional a partir de investidores da City de Londres, cujos propósitos eram a obtenção rápida de grandes lucros.
A pressão accionista destes investidores levou ao fim da P&O como última grande companhia de navegação tradicional da Grã-Bretanha em poucos anos. Primeiro deu-se a separação da actividade de cruzeiros, com a constituição em 2000 de uma nova empresa, a P&O PRINCESS Cruises PLC, que pouco depois negociou a fusão com o grupo Royal Caribbean, não concretizado por acção da rival Carnival Corporation, que veio efectivamente a adquirir a P&O-Princess em 2003.
A P&O continuou a vender e reduzir as suas actividades por pressão de investidores e mercados que realizaram enormes lucros de curto prazo mas mataram a empresa. A área dos contentores fundiu-se com a holandesa Neddlloyd dando origem à P&O Neddlloyd que por sua vez foi engolida pela Maersk, os outros sectores de actividades foram sendo também desmembrados e a velha companhia P&O acabou por ser vendida à companhia D.P. World, do Dubai, em Novembro de 2005. O desmembramento da companhia P&O reflecte as práticas do capitalismo global dos nossos dias. Das actividades marítimas só resta a P&O Ferries. A Carnival Corporation continua a manter a marca P&O Cruises sob propriedade da Carnival UK, que detém igualmente a Cunard, tendo assegurado temporariamente o direito ao uso da antiga bandeira da P&O com as cores de Portugal e Espanha sob licença.

A P&O e a Carnival

A entrada da P&O Princess na esfera de interesses do Grupo Carnival permitiu a consolidação e expansão das frotas de navios de cruzeiros da P&O, da Princess e da Cunard, mantendo a tradição do nome Peninsular & Oriental associado a uma das maiores operações de navios de cruzeiros do século XXI. As frotas continuam em expansão, os navios vão sendo cada vez mais e maiores, o que faz com que o gigantesco ORIANA de 1995, com as suas 69.000 toneladas comparadas às 45.000 do CANBERRA, seja agora um navio de tamanho médio prestes a entrar no grupo restricto dos paquetes clássicos.
É neste contexto que a CARNIVAL UK está a comemorar os 175 anos da P&O como inventora dos cruzeiros, uma operação de "marketing" promocional para aumentar a notoriedade dos produtos de cruzeiros com a marca P&O face a uma concorrência global crescente. Entretanto os navios da Carnival UK com a marca P&O continuam efectivamente a renovar as velhas tradições da Peninsular and Oriental iniciadas na década de 1830 em águas portuguesas, quando o vapor de rodas IBÉRIA transportou para o Funchal os primeiros turistas ingleses. Hoje a presença dos paquetes da P&O nos portos nacionais é cada vez mais frequente e a tendência é para termos cada vez mais paquetes de chaminés amarelas cheios de turistas ingleses atracados no Funchal, em Lisboa, em Leixões, em Portimão e nos portos dos Açores.
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Thursday, August 20, 2015

Série de artigos "Navios do Despacho 100"

Tenho vindo a publicar nas diversas edições da REVISTA de MARINHA uma série de artigos dedicados às características e história de cada um dos navios do Despacho 100. O último artigo publicado é dedicado ao paquete MOÇAMBIQUE de 1949, que pode ser lido na integra na RM e cuja ficha técnica e histórica foi agora publicada no meu Diccionário de Navios Portugueses, que agora se reactiva. Entretanto hoje estou a escrever a história do 36º navio do Despacho 100, o mini-paquete LURIO, da Companhia Nacional de Navegação, que em 1968 passou para a frota da Insulana com o  nome FAIAL e navegou até 1973. Destina-se á próxima Revista de Marinha, edição de Agosto e Setembro, em produção.
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Saturday, July 11, 2015

Os 50 anos da Princess

A propósito dos 50 anos de existência da companhia PRINCESS, escrevi recentemente um artigo para a revista CRUZEIROS nº 16, que se encontra em distribuição nos postos de venda habituais, do qual deixo um pequeno excerto:
O nome da PRINCESS CRUISES e a sucessão de princesas flutuantes por que se traduz a frota da companhia foram inspirados neste pequeno vapor da Canadian Pacific, o PRINCESS PATRICIA

A Princess Cruises operou o seu primeiro cruzeiro há 50 anos, contando meio século de vida num sector com cada vez mais notoriedade e adeptos para cujo sucesso deu um grande contributo, inventando os "Barcos do Amor". 
A década de 1960 assistiu a mudanças profundas no mar. As cargas passaram a ser transportadas cada vez mais por unidades especializadas de todos os tipos possíveis e imaginários, desde navios-tanques preparados para o transporte de vinhos ou sumo de laranja, até a transportadores de caixas metálicas coloridas uniformizadas, a que hoje chamamos contentores, e a paquetes concebidos de raiz para abrir os oceanos ao turismo de massas, democratizando os cruzeiros, até aí feudo de uns tantos privilegiados. 
Há 50 anos ainda se construiam na Europa grandes navios de passageiros para carreiras regulares, caso da Itália, com uma derradeira geração de transatlânticos, OCEANIC, MICHELANGELO, RAFFAELLO, EUGENIO C, e do Reino Unido, com a aposta no QUEEN ELIZABETH 2, mas o volume de passageiros descia irreversívelmente, empurrando algumas das maiores frotas de então para uma extinção rápida, enquanto outras viram nos cruzeiros o único futuro possível. Nesse contexto, o OCEANIC de 1965 nunca chegou a ser utilizado no Atlântico Norte apesar de projectado para a linha Norte da Europa – Canadá e tornou-se um êxito imediato em Nova Iorque com cruzeiros regulares à Bahamas e Caraíbas, enquanto a Cunard concebia o célebre QE2 como paquete de linha e ao mesmo tempo navio de cruzeiros, aposta em que muitos duvidaram nos primeiros anos, mas que provou ter sido a escolha acertada. 
Constituída em 1964 na costa Oeste dos Estados Unidos por Stanley B. MacDonald, a Princess Cruises iniciou a actividade no final de 1965 e está a comemorar os primeiros 50 anos como uma das grandes companhias de cruzeiros internacionais, integrada no Grupo Carnival, onde tem um peso de 19 por cento, com uma frota de 18 navios que em 2014 transportaram cerca de 1,5 milhões de passageiros por todo o mundo. 
O começo foi modesto mas criativo, inventando-se literalmente a Riviera Mexicana, com o afretamento à Canadian Pacific do vapor PRINCESS PATRICIA, que saiu de Los Angeles a 3 de Dezembro de 1965 para o México, data que marcou o arranque dos cruzeiros regulares na costa oeste dos EUA e de uma pequena companhia que adoptou o nome desse ferry construído em 1949, e convertido para cruzeiros ao Alaska em 1963, com 6 062 toneladas de arqueação bruta e lotação para 390 passageiros, apresentando-se como Princess Cruises. 
Stanley MacDonald nasceu em Alberta, Canadá, em 1920 e a ideia de criar uma empresa de cruzeiros alinhavou-se com a primeira experiência profissional que teve com navios de passageiros, em 1962, quando da 21ª. Feira Mundial, em Seattle, ligada ao afretamento do paquete YARMOUTH, que então veio das Caraíbas e fez diversos cruzeiros de 10 dias de São Francisco a Seattle e Victoria essencialmente para os passageiros visitarem a EXPO. 
O YARMOUTH era um navio de passageiros costeiro construído em 1927 em Filadélfia, no famoso estaleiro William Cramp & Sons, com o seu gémeo EVANGELINE, para a carreira Boston – Yarmouth. Tinha 5 043 toneladas de arqueação bruta e capacidade para 751 passageiros. Serviu como transporte de tropas durante a segunda guerra mundial, de 1942 a 1946, e no ano seguinte regressou aos serviços de passageiros na costa leste dos EUA, actividade então em rápido declínio. Foi depois um dos pioneiros dos cruzeiros às Caraíbas a partir da Florida, após ser vendido em 1954 e baseado em Miami, operando até Abril de 1966. 
Mais moderno que o YARMOUTH, o PRINCESS PATRICIA apresentava características semelhantes e havia sido adaptado no início de 1963 pela Canadian Pacific para cruzeiros sazonais ao Alasca, de Maio a Setembro, quando a lotação para passageiros foi reduzida a cerca de 400. Comparado com as condições oferecidas pelos navios actuais, o nível destes pequenos vapores costeiros era inimaginável, mas era o que havia então e ninguém se queixava. A própria invenção pela Princess Cruises de um itinerário de Los Angeles aos portos de Mazatlan, Puerto Vallarta Cabo San Lucas e Acapulco, no México, teve pormenores muito curiosos, dado que na maior parte das escalas não existiam quaisquer infraestruturas de apoio ao embarque e desembarque de passageiros e foi necessário recorrer a todo o tipo de expedientes, como afundar um batelão junto à praia para servir de pontão para onde os turistas podessem saltar em Cabo San Lucas. O que é certo é que os cruzeiros do PRINCESS PATRICIA foram um sucesso e o programa foi repetido em 1966-67 com o mesmo navio.
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