Tuesday, May 17, 2016

Obrigado, George Potamianos

A leitura do excelente artigo do Eng. Jorge D'Almeida publicado no Jornal da Economia do Mar sobre o armador grego Alex Panagopoulos e a Arista Shipping, fez-me recordar outro grande amigo de Portugal, George P. Potamianos, que nos deixou fará dentro de dias quatro anos, o que me inspirou as linhas reproduzidas abaixo...

"Obrigado George,
Alex Panagopoulos não é o único grego com raízes marítimas a se encantar por Portugal. O meu Querido Amigo George Petrus Potamianos descobriu Portugal em 1975 por acaso, quando veio inspeccionar o paquete FUNCHAL, então propriedade da CTM, o qual na altura tinha sido retirado da carreira das llhas e se encontrava para venda. GPP apaixonou-se pelo navio e por Portugal e a partir de Maio de 1976 passou a afretar o FUNCHAL anualmente para um programa de cruzeiros de Verão a partir de Gotemburgo, para o mercado sueco, que teve enorme êxito.
Em Agosto de 1985, com a liquidação da empresa pública CTM, o FUNCHAL foi vendido em leilão e comprado por George Potamianos. Em vez de pegar no navio e o levar para a Grécia, fez o contrário, trouxe a família para Portugal, comprou uma casa em Caxias, os filhos mais novos foram para o colégio inglês de Carcavelos ao mesmo tempo que abriu um modesto escritório na rua do Alecrim, onde instalou a Arcalia Shipping. Manteve o nome original ao FUNCHAL e a tripulação portuguesa, e quis manter este paquete com tanto significado para Portugal com bandeira portuguesa no nosso registo convencional, isto em 1985, quatro anos ates de ser criado o MAR. A legislação portuguesa no que se referia a hipotecas de navios não permitiu essa primeira opção por a aquisição do navio ter sido feita com o financiamento de um banco sueco que exigiu o recurso ao registo do Panamá como garantia do empréstimo. A operação do FUNCHAL não podia ter corrido melhor sob a gestão Potamianos, o navio gerou um lucro suficiente para pagar o empréstimo logo ao fim do primeiro ano de operação, e o passo seguinte foi a compra do INFANTE DOM HENRIQUE, adquirido ao Gabinete da Área de Sines e abatido por Portugal como sucata. GPP promoveu a reconstrução e modernização deste grande navio e quando por insistência de um afretador alemão, teve de mudar o nome ao INFANTE, teve o cuidado de escolher outro nome português com dignidade adequada ao paquete; pensou em vários, nomeadamente FERNANDO DE MAGALHÃES, mas era necessário um nome que se pronunciasse de forma simples em inglês, ao contrário de IDH e F de Magalhães. Procurou, procurou e uma tarde ao estacionar a sua viatura à porta de casa na rua Vasco da Gama, em Caxias, olhou para a placa com aquele nome e resolveu o assunto: o INFANTE DOM HENRIQUE, nome impronunciavel na Alemanha, passou a ser o VASCO DA GAMA. A frota continuou a crescer, o escritório foi mudado para a sede da Rinave num andar de um prédio da 24 de Julho, onde depois se expandiu para outros andares e para o prédio do lado, e criou uma escola e renovou as tradições portuguesas no mercado de cruzeiros com uma geração de oficiais portugueses que hoje comandam um número significativo de navios de cruzeiros no mercado internacional. Chegou a ter 2500 pessoas a trabalhar para as empresas surgidas no âmbito da marca Classic International Cruises, muitos dos quais portugueses, e com o registo MAR, em 2001 o FUNCHAL e os restantes navios da CIC passaram a ter a nossa bandeira. Em 2011 tentei com outro amigo, propor à Presidência da República uma condecoração para o grande amigo de Portugal que foi G.P. Potamianos, mas não houve o mínimo interesse em reconhecer o trabalho de uma vida e de forma simbólica agradecer a dedicação genuína a Portugal. GPP faleceu em Maio de 2012 e repousa em Oeiras. As suas empresas passaram para os filhos mais novos que não conseguiram dar continuidade ao trabalho do Pai, como acontece tantas vezes com Gregos cujas empresas armadoras não resistem à passagem de testemunho do fundador. Não foi o que aconteceu felizmente com Pericles Panagopoulos, o qual, muito antes de o filho Alex descobrir Portugal quisera instalar aqui uma nova actividade com um “cruise ferry” que seria baseado em Lisboa para uma operação semanal às ilhas da Madeira e Canárias, isto após ter vendido a sua Royal Cruise Line ao Grupo NCL. As dificuldades então criadas e os entraves burocráticos foram tais que teve de desistir de Portugal, mas não da actividade com ferries, pois por essa altura criou na Grécia a Attika Ferries com o bem sucedido conceito de Superfast Ferries. Ainda bem que o seu filho Alex acabou por redescobrir Portugal. LUÍS MIGUEL CORREIA"
George Potamianos deixou-nos há quatro anos e por circunstâncias diversas, quatro dos seus navio, incluindo o FUNCHAL, voltaram a ser controlados por interesses portugueses, infelizmente com resultados opostos ao sucesso que GPP soube construir a partir de Lisboa desde 1985. Essa herança tornou-se um peso para o banco Montepio que se quer desfazer dos três paquetes que restam da antiga frota da Classic International Cruises. Depois de se ter investido muito dinheiro, o FUNCHAL, o PORTO ex-ARION e o ASTORIA ex-AZORES, ex-ATHENA estão à venda, os dois primeiros imobiizados na Matinha, e o preço baixa todos os dias. 
Não há ninguém capaz em Portugal de voltar a pegar nestes navios?

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