Friday, January 12, 2018

A nostalgia da Marinha Mercante


Em Novembro de 1953 o Paquete SANTA MARIA largou do Tejo na viagem inaugural à América do Sul num acontecimento memorável, de triunfo pessoal para o armador Bernardino Corrêa que então dirigia a sua CCN desde há 31 anos. Seguiram a bordo o Ministro da Marinha Américo Thomaz e muitas outras individualidades, prolongando-se a carreira do Brasil até Buenos Aires e acrescentando uma escala em Vigo. Gertúlio Vargas e Juan Peron foram a bordo na Guanabara e Buenos Aires.
Não sou desse tempo, mas testemunhei esse mundo, dos navios aos armadores, das viagens aos tripulantes, das cargas e passageiros aos portos em azáfama constante. Naveguei no SANTA MARIA, e em diversos outros navios dessa época. 
Era o ressurgimento rumo ao mar, dizia-se, mas afinal foi mais um esforço de ressurgimento que outra coisa. Não se evoluiu e não se consolidaram os ganhos e não se desbloquearam os constrangimentos culturais e económicos que sempre estiveram presentes a contrariar a nossa quimérica vocação marinheira. Assim foram desaparecendo os navios, fecharam-se as empresas e os actores dessa aventura marítima da segunda metade do século XX português foram-se transferindo para terra e substituindo as realidades activas pelo mundo nostálgico das recordações. 
As instalações do antigo Clube Desportivo da extinta Companhia Nacional de Navegação renasceu como sede do Clube de Oficiais da Marinha Mercante, numas salas históricas, com vista para o Mar da Palha e os cais do Tejo. Os navios e outros ícones espreitam das paredes, das estantes. Nesta fotografia um marinheiro do Paquete SANTA MARIA permanece apoiado no Presidente Américo Thomaz, o velho Pai Tomás reduzido a uma lombada do livro editado para perpetuar a viagem de Sua Excelência a Moçambique no N/T PRÍNCIPE PERFEITO. 
Às Quintas-feiras reúnem-se os antigos oficiais em almoço convívio, do qual participei ontem. Falou-se das aventuras que eram as longas viagens ao Oriente dos paquetes TIMOR e ÍNDIA, das travessias de Lourenço Marques a Dili durante 22 a 23 dias sem se navegar perto de nada, do comandante do ÍNDIA - «O Comandante Castro era um grande Comandante», disse alguém na mesa, com veneração. E saí de lá com mais informação, finalmente desvendei o motivo exacto porque o SANTA MARIA, em Abril de 1973 cancelou a viagem e foi para o Mar da Palha: avaria grave numa das turbo-geradoras. Foi o seu fim, a anunciar uma época que se encerrava sem glória nem utilidade. E tinha sido tão fácil então aproveitar os Santas Marias todos para cruzeiros. Não se fez nada, não se faz nada e os marinheiros são cada vez menos. E escrevo as memórias, dos navios, das empresas, das pessoas. E passo na Matinha e revejo todo esse mundo no FUNCHAL, que ninguém quer. 

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