Wednesday, February 10, 2010

Homenagens a Santos e a seo Zezinho


Texto atualizado em 26 de Janeiro de 2010 - 01h28 por Laire José Giraud *

"A fotografia é muito mais que a imagem no papel. É mais que a lembrança de pessoas, ou de fatos. É o registro histórico da realidade de uma época. Um registro que não mente. "Carlos Drummond de Andrade
Este artigo é uma singela homenagem ao Município fundado por Braz Cubas, que nesta terça (26) está aniversariando e completa 464 anos da sua fundação - e 171 anos de elevação à categoria de Cidade. A história da Cidade está intimamente vinculada ao Porto, que a estrada de ferro São Paulo Railway começou a operar em 1867, o que permitiu o escoamento das safras de café rumo ao mercado internacional. Os primeiros 260 metros de cais de pedra foram inaugurados em 2 de fevereiro de 1892. Em 1909, o Porto estava completo dentro do previsto, isto é, o trecho do cais entre o Valongo e os Outeirinhos, dois pequenos montes que ficavam próximo ao monumento de Nossa Senhora de Fátima, num total de 4.720 metros.
O ícone da fotografia santista, José Dias Herrera, que nos deixou dias atrás, em foto de 2006. Clicada pelo autor.
Na verdade, a coluna Recordar divide esta homenagem com o ícone fotográfico da Cidade, o fotógrafo José Dias Herrera, o Seo Zezinho, como era chamado carinhosamente pelos amigos e conhecidos. Infelizmente, ele nos deixou no último dia 18.
Vale dizer que José Dias Herrera era um grande apaixonado das coisas santistas, tanto que durante muitas décadas homenageou Santos com a magia de suas fotos.
Conheci o sr. Herrera, como eu o chamava, por volta de 1969, quando era contato publicitário da Agência Hugo Paiva. Das tantas vezes que ia ao jornal A Tribuna para levar anúncios, comecei a reparar num senhor muito simpático e risonho, que amavelmente cumprimentava as pessoas que por ele passavam.
Nos anos dourados, um dos mais belos transatlânticos que fazia linha regular entre a Europa e a América do Sul, o italiano Giulio Cesare, navegando pela Ponta da Praia por volta de 1955. Foto: José Dias Herrera - Acervo: L. J. Giraud.
Naquela época, o pessoal de A Tribuna, como jornalistas, fotógrafos e demais funcionários, costumavam tomar lanches ou um cafezinho no Mundial (lá faziam o melhor sanduíche de carne assada da cidade), o que acontecia, também, com os que trabalhavam nas imediações. Eu não fugia à regra. Todas as tardes lá estava eu saboreando algum dos quitutes do Café Mundial. Assim, muitas vezes via o Seo Zezinho passando com a sua inseparável companheira, a máquina fotográfica, e passamos a nos saudar todas às vezes que nos avistávamos.
Entretanto, minha aproximação definitiva aconteceu há cerca de uns quinze anos, durante uma exposição de suas fotografias, expostas em painéis no saguão de entrada da Prefeitura Municipal de Santos.
O transatlântico português Santa Maria, na primeira escala feita em Santos (1953), fundeado no Estuário, no aguardo da visita das autoridades portuárias. Foto: José Dias Herrera - Acervo: L. J. Giraud.
Estava admirando uma bela foto do transatlântico italiano Conte Grande, por ele clicada por volta de 1952, quando senti uma mão no meu ombro esquerdo. Virei e deparei com a alegre fisionomia do Seo Zezinho, que me perguntou o que estava achando da exposição? Respondi com uma palavra que dizia tudo: esplendorosa.
Na oportunidade, disse a ele que gostaria de ter a foto do belo navio. Com ar de satisfação, o sr. Herrera disse que quando terminasse a exposição passaria no meu escritório de despachos aduaneiros para entregá-la como forma de um presente. Dito e feito, após vários dias lá apareceu o grande fotógrafo com o prometido. Não preciso dizer como foi a minha felicidade ao receber a imagem do legendário Conte Grande.
O luxuoso transatlântico holandês Niew Amsterdam, na sua segunda passagem pela Cidade em viagem de cruzeiro (1954). Foto: José Dias Herrera - Acervo: L. J. Giraud. Algumas vezes no fim do expediente, eu o encontrava no ponto de ônibus, na General Câmara, e lhe oferecia uma carona, que era prontamente aceita. Más antes de deixá-lo no prédio onde residia, n a Av. Vicente de Carvalho, tinha que passar numa tradicional padaria, situada na Av. Bernardino de Campos com Francisco Glicério, onde ele costumava comprar médias para o lanche. – Um detalhe nessas ocasiões sempre trazia 06 daquelas delícias quentinhas.
Após essa aproximação, me propus a adquirir fotos de sua autoria, que fossem do porto e de navios, clicadas nos anos dourados. Assim obtive cerca de 30 delas, muitas das quais já ilustraram meus artigos nesta coluna, bem como dos livros que lancei, nos últimos anos.
O italiano Anna C, em fotografia emocionante, durante desatracação em 1954. Nota-se parentes e amigos se despedindo dos passageiros. Foto: José Dias Herrera - Acervo: L. J. Giraud.
Seo Zezinho fotografou, à Cidade por vários ângulos o que permite observarmos às grandes mudanças ocorridas no passar dos anos. Fotografou jogos de futebol, inaugurações, políticos, tragédias, celebrações, o cais e seus navios, principalmente Pelé, e tudo mais que possamos imaginar, que fosse ligado à Santos.
José Dias Herrera, com certeza foi o fotografo que mais tempo exerceu a profissão no Brasil. Era irmão de dois fotógrafos famosos da Cidade, Paco e Rafael Dias Herrera já falecidos. – Foram fotógrafos de A Tribuna.
O britânico Andes, um dos mais célebres navios que escalavam Santos, numa época em que os aviões ainda não faziam frente aos navios de passageiros. Nota-se várias belonaves estadunidenses atracadas e a famosa cábrea (guindaste flutuante) Sansão, além das torres de alta tensão da Cia. docas de Santos, em Junho de 1953. Foto: José Dias Herrera - Acervo: L. J. Giraud.
Herrera, sempre contava vários acontecimentos da Cidade, e numa das caronas, me fez voltar ao tempo dos bondes, pois ao passarmos nas imediações da Rua João Caetano, ele disse: Era aqui que o bonde fazia a curva para voltar para o Centro, e através da imaginação, vi o bonde fazendo o retorno.
De uma coisa posso me orgulhar, eu o fotografei e fui fotografado ao seu lado numa de suas visitas ao meu escritório.
O Recordar presta duas homenagens concomitantes: Uma à Cidade de Santos e outra ao Seo Zezinho, autor de incontáveis registros fotográficos históricos da Cidade que tanto amava. - Quando ele a fotografava, ela ficava linda por todos os ângulos!
Impressionante fotografia tirada no Armazém 25 da Cia. Docas de Santos, mostrando detalhes da época em que não se utilizava contêineres. As cargas eram embarcadas soltas. O local é onde hoje funciona o Terminal de Passageiros Giusfredo Santini (1955). Foto: José Dias Herrera - Acervo: L. J. Giraud.
Para homenagear o paulistano do Brás, nascido em 1922, mas santista de coração, a coluna esta ilustrada com fotos clicadas pelo excelente fotógrafo.
Ressalto que foi uma honra ter conhecido o Sr. Herrera, além de grato por ter confiado algumas das suas marcantes e expressivas fotografias, na minha pessoa. Hoje, essas fotos fazem parte do meu acervo.
Rebocadores da Wilson,Sons auxiliando um navio do Lloyd Brasileiro, com problemas no leme. Na imagem, nota-se poucos edifícios de apartamentos (1955). Foto: José Dias Herrera - Acervo: L. J. Giraud.
Uma coisa é certa, a Cidade de Santos reconhece o seu talento e mérito inconfundível, na arte de fotografá-la, ao longo destas 07 décadas. – Obrigado, Seo Zezinho.
Bela Santos, Parabéns pelas 464 velinhas do seu grande bolo de aniversário. – Você permanece sempre jovem!
O navio frigorifico Rio Galego da Flota Mercante Del Estado descarregando produto alimentício, tendo ao fundo várias caixas de maçãs argentinas. Final dos anos 50. Foto: José Dias Herrera - Acervo: L. J. Giraud.
Uma imagem típica do Porto de Santos na década de 1950. Navios fundeados no canal do Porto, lancha da Fronape - Frota Nacional de Petroleiros, o cargueiro nacional Amaragy, catraias e passageiros, membros da policia marítima e vagões, nas proximidades do pontão das barcas do Itapema, hoje Vicente de Carvalho (1954). Foto: José Dias Herrera - Acervo: L. J. Giraud.

* Laire José Giraud é despachante aduaneiro, colecionador de cartões-postais da Cidade e de transatlânticos antigos. Colaborador da Revista de Marinha de Portugal. Publicou cinco livros, como autor e co-autor, sobre temas da Santos antiga.
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